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Desenvolvimento do Brasil está atrelado à Ciência e Tecnologia

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A ciência e a tecnologia no Brasil experimentam um momento de profundo retrocesso, constataram os conferencistas participantes da mesa “Desafios da reindustrialização, e da remontagem do Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação”. O tema foi debatido nesta sexta-feira (23), em São Paulo, no Ciclo de Debates “Novos Rumos para o Brasil: Desafios para retomada do Desenvolvimento Nacional”, promovido pela Fundação Maurício Grabois.

Sérgio Rezende, físico e ex-ministro de Ciência e Tecnologia nas gestões do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, afirmou que a situação é dramática. “Temer praticamente extinguiu o Ministério da Ciência e Tecnologia e Inovação (MCTI). Não há nesse governo preocupação com essas áreas”, declarou. Com a posse de Michel Temer, o MCTI foi fundido com o Ministério das Comunicações. “Enquanto a China anuncia um megaministério na área, o Brasil acaba com o dele”.

O enfraquecimento do MCTI é apenas reflexo do retrocesso que vem se aprofundando no setor de ciência, tecnologia e pesquisa do país. Sérgio lembrou que, ao contrário do que acontece atualmente, o ex-presidente Lula mobilizou as áreas econômicas do governo para garantirem à época os recursos financeiros para a área. Sérgio esteve à frente do ministério por cinco anos e meio.

“O ex-presidente também se comprometeu com o descontingenciamento dos recursos dos fundos setoriais, mas que não houve continuidade nas gestões seguintes”, lembrou o ex-ministro. A atenção que a área recebeu nas gestões de Lula fez o Brasil ganhar a atenção mundial em publicações internacionais e em relatórios da Organização das Nações Unidas como uma promessa na área, mencionou. O conferencista lembrou, no entanto, que o sistema da última década não tem a dimensão necessária para uma Economia do conhecimento.

Sérgio reforçou a relação direta entre investir em ciência e tecnologia e os avanços na política de desenvolvimento de um país. Ele comparou duas tabelas que mostram as nações mais ricas do planeta e as nações que mais produziram publicações científicas. “A lista de países é a mesma nas duas tabelas. A ciência é o motor da prosperidade. O Brasil precisa ter uma política de Estado para ciência, tecnologia e inovação. A política de hoje é equivocada”, ressaltou.

O economista José Cassiolato da Universidade Federal do Rio de Janeiro, especialista nas áreas de inovação, tecnologia e indústria, também destacou o aumento “brutal” dos recursos nos governos Lula que, na opinião dele, transformaram a estrutura de ciência e tecnologia do Brasil. Por outro lado, apontou dificuldades desse período como o “encolhimento do tecido industrial” sem a presença de empresas que pudessem, como acontece nos Estados Unidos, servir de retaguarda.

Ele também lembrou que apesar dos esforços do governo federal em dar incentivo às empresas nacionais e multinacionais para a pesquisa em ciência, tecnologia e inovação não houve um avanço. Ele citou especialmente a indústria automotiva. “As empresas de automóveis que foram de 2011 a 2014 objeto central da política de inovação para as quais demos dinheiro para burro, importaram automóveis, desempregaram brasileiros e exportaram lucros e dividendo de forma boçal”, criticou.

Cassiolato lembrou ao final da intervenção que o Brasil tem vantagens quando se trata de sustentabilidade e novas fontes de energia. Na opinião dele, experiências no próprio país com tecnologia própria podem apontar caminhos para necessidades fundamentais do país. “São oportunidades fantásticas do ponto de vista produtivo, de ciência e tecnologia e inovação. Quando se pensa em habitação, saúde e saneamento a gente tem soluções internas que são facilmente passíveis de serem captadas e ordenadas e que vão impactar no nosso sistema produtivo”.

Esse olhar para as experiências do país também foi mencionado por Helena Lastres, especialista em inovação e arranjos produtivos locais. “Para fazer um projeto de desenvolvimento em novas bases é preciso olhar para nós mesmos. Temos uma série de coisas vibrantes acontecendo no pais que a gente ignora. E concordo em colocar, como disse o (Eduardo) Fagnani, a desigualdade no centro desse programa e também as potencialidades. Os outros já resolveram as desigualdades deles e não tem as nossas potencialidades”, observou Helena.

A economista demonstrou preocupação ao se deparar com a pesquisa realizada na academia. “Que tipo de conhecimento estamos gerando neste país? Tenho visto um avanço da lógica abstrata, da matemática descontextualizada”, afirmou. De acordo com ela, um projeto mais ligado às aspirações do povo é que vai angariar legitimidade e não copiar modelos de fora. “É preciso romper com esse estado autoritário que te obriga a usar os óculos dos outros”, enfatizou.

Por Railídia Carvalho do Portal Vermelho

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